Cortando Águas com Facas PDF Imprimir E-mail
Escrito por Carlos Zardini   
Ter, 09 de Fevereiro de 2010 19:17
"Muitas vezes entramos em alguns becos sem saída, em situações que julgamos sem solução, cuja única atitude que nos resta é parar, respirar e continuar marchando, às vezes contra um muro, contra um precipício, contra um mar..."


Estes símbolos hieroglíficos aparecem gravados em um granito egípcio de 3500 anos [1]. Junto a estes símbolos, no mesmo granito, existem narrativas sobre dias escuros e epidemias mortais. Mas o que me interessa mesmo são pura e simplesmente estes dois símbolos. Olhe bem para eles: três ondas seguidas por duas setas. Mesmo sem conhecer o sistema de escrita egípcio você pode decifrá-los: o primeiro representa as águas, o segundo as facas. A junção dos dois sugere águas cortadas. Em algum momento, em algum lugar, há 3500 anos, águas foram cortadas.

Já imaginei várias alternativas para explicar a história israelita do êxodo de um ponto de vista racional. Seu momento dramático, sem dúvida, é quando Charlton Heston ergue o cajado e ordena que as águas se separem no filme "Os 10 Mandamentos". Ou melhor: Moisés ergue o cajado, ordena ao povo que marche sobre as águas e, aí sim, as águas se separam (uma diferença importantíssima).

O granito egípcio mostra que alguma coisa excepcional aconteceu. Não se cortam águas com facas. O granito egípcio conta a história do ponto de vista do inimigo de Moisés, aquele inimigo que o perseguiu, que o atormentou, e que no final, quando estava certo de triunfar, viu algo acontecer que fugia totalmente à sua percepção de realidade, algo como tão estraordinário como cortar água com uma faca.

Muitas vezes entramos em alguns becos sem saída, em situações que julgamos sem solução, cuja única atitude que nos resta é parar, respirar e continuar marchando, às vezes contra um muro, contra um precipício, contra um mar. Eu imagino o que passou na cabeça de Moisés: O Egito nos quer escravos? Escravos não voltamos. Se eles quiserem podem recolher nossos corpos no mar.

Essa é a atitude do absurdo que as vezes precisamos tomar. Por favor, não se atire de um precipício, não foi isso que eu quis dizer. Mas diante de uma situação absurda, cabe uma ação absurda. Moisés tinha um histórico de brigar com Deus, e acho que foi só por isso que recebeu aquela missão. Ele era a pessoa absurda para o momento absurdo. Todos os outros eram certinhos demais, metódicos demais, reverentes demais. Moisés brigava, batia, discutia. Deus mostrava sua fúria para amedrontar Moisés, e Moisés estava pouco se lixando. Depois, escondido de Moisés, Deus abria um sorriso: esse é meu escolhido.

Referências:

[1] Este granito foi encontrado na cidade egípcia de Al-Arish. Uma tradução aproximada de seu conteúdo pode ser encontrada nesse site: http://www.pibburns.com/smelaris.htm . Não existe consenso entre os pesquisadores sobre o significado das três ondas e duas setas. O arqueólogo Simcha Jacobovici associou-os com a passagem do mar vermelho em seu documentário The Exodus decoded (http://exodusdecoded.com).
Última atualização em Ter, 23 de Fevereiro de 2010 21:09
 

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